Levantamento com dados do sistema legislativo mostra recuo nas proposições e nos requerimentos de fiscalização ao Executivo neste ano.
Depois de um primeiro ano de mandato marcado por intensa atividade legislativa, os vereadores de Maringá reduziram consideravelmente o ritmo de trabalho em 2026. Um levantamento com base no Sistema de Apoio ao Processo Legislativo (SAPL) da Câmara Municipal mostra uma queda de quase 70% na aprovação de projetos de lei no primeiro semestre deste ano, na comparação com o mesmo período de 2025. A informação levanta uma dúvida natural entre os eleitores: essa desaceleração significa menos atenção às demandas da cidade, ou reflete apenas um ajuste natural de ritmo após o início de uma nova legislatura? Os números e as explicações de analistas ajudam a entender o cenário.
O que mostram os números da Câmara Municipal neste ano
De acordo com o levantamento, os vereadores de Maringá apresentaram 291 projetos de lei entre janeiro e junho de 2026, sendo 244 ordinários e 47 complementares. O ritmo de aprovações, porém, caiu de forma expressiva: em 2025, primeiro ano da atual legislatura, a Câmara aprovou 154 leis no primeiro semestre, uma média próxima de uma aprovação por dia. Neste ano, foram apenas 49 leis aprovadas no mesmo intervalo, equivalente a uma aprovação a cada cinco dias.
Os requerimentos de informação, instrumento usado pelos parlamentares para cobrar dados e esclarecimentos da Prefeitura, também tiveram queda acentuada: de 1.216 pedidos no primeiro semestre de 2025 para 283 no mesmo período de 2026. O contraste ajuda a dimensionar a mudança de postura da Casa: em 2025, ano de estreia da legislatura atual, a Câmara teve o maior volume de proposições, requerimentos e indicações de sua história, somando mais de seis mil registros no total do ano.
Esse patamar não se repetiu no primeiro semestre de 2026, o que motivou o levantamento e as análises que buscam explicar a mudança de comportamento do plenário. Ainda assim, a atividade legislativa não parou: sessões recentes aprovaram pautas variadas, da criação de programas de drenagem urbana sustentável a créditos suplementares de R$ 34,5 milhões no orçamento municipal, o que mostra que a queda numérica não significou paralisação da Casa.
Por que os vereadores reduziram o ritmo de votações
Para o sociólogo e analista político Joel Cavalcante, a queda tem explicações que vão além de uma simples acomodação natural. Um dos fatores apontados é o alinhamento entre a Câmara e o Poder Executivo, o que, segundo o analista, tende a reduzir o volume de embates e, consequentemente, de novas proposições legislativas voltadas à fiscalização. Outro elemento citado é o próprio calendário político: 2026 é ano eleitoral, e parte dos vereadores concentra energia em campanhas para outros cargos, o que desloca o foco do trabalho parlamentar cotidiano para pautas de projeção pessoal ou partidária.
Há ainda um fator ligado à curva natural de qualquer legislatura recém-eleita. No primeiro ano de mandato, é comum que vereadores novos apresentem grande volume de projetos como forma de se apresentar ao eleitorado e demonstrar atuação. Passado esse período inicial, o ritmo tende a se estabilizar, e parte da produção legislativa se concentra em temas de maior impacto orçamentário ou administrativo.
Um exemplo dessa dinâmica apareceu em sessões recentes, quando projetos do Executivo, como a regulamentação do transporte remunerado por aplicativos, chegaram a ser retirados de pauta por sessões consecutivas antes de avançar, enquanto propostas pontuais, como a criação de datas comemorativas ou denominação de logradouros, seguiram tramitando normalmente. Esse tipo de movimento sugere que temas mais sensíveis e de maior repercussão pública tendem a exigir mais tempo de negociação entre os vereadores e o governo municipal.
O que a desaceleração significa para o eleitor de Maringá
A redução nos requerimentos de informação é o ponto que mais chama atenção sob a ótica da fiscalização, já que esse instrumento é uma das principais ferramentas do Legislativo para cobrar transparência do Executivo sobre contratos, serviços e políticas públicas. Uma queda de mais de 75% nesse tipo de pedido, comparando os dois primeiros semestres, pode indicar menor intensidade no acompanhamento cotidiano das ações da Prefeitura, ainda que isso não signifique ausência total de fiscalização, já que parte desse trabalho também ocorre em comissões e audiências públicas.
Vale destacar que nem toda pauta aprovada tem o mesmo peso político. Neste ano, a Casa também discutiu temas como o reajuste salarial de servidores e vereadores, aprovado em primeira discussão com ressalvas de parte do plenário sobre a forma como o processo foi conduzido, o que mostra que divergências internas seguem existindo mesmo com o menor volume de votações.
Para o eleitor, entender esse tipo de dado é útil justamente por permitir uma leitura mais criteriosa do desempenho de cada vereador ao longo do mandato, para além do discurso de campanha. Com as eleições se aproximando, é provável que o debate sobre produtividade legislativa volte a ganhar espaço público, com cobrança por parte de eleitores e da imprensa local sobre o real impacto do trabalho parlamentar no dia a dia da cidade.
Fonte:
Maringá Post
