O engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, nota há anos um paradoxo que atravessa o Brasil de norte a sul: cidades que investem em captação e tratamento de água, mas perdem volumes expressivos antes que o líquido chegue ao consumidor. Em meados de 2026, com o marco regulatório do saneamento básico entrando em sua fase mais decisiva de implementação, tendo em vista a aproximação do prazo federal para universalização dos serviços e os contratos de concessão ganhando velocidade, esse problema deixou de ser uma questão meramente técnica para se tornar um dos principais gargalos do setor. O Brasil ainda perde, em média, entre 38% e 45% de toda a água tratada antes de ela chegar à torneira do consumidor.
Não se trata de um fenômeno novo, mas a urgência mudou de patamar. Com os contratos de concessão e parceria público-privada assinados nos últimos dois anos pressionando as operadoras por metas de eficiência operacional, a redução de perdas deixou de ser uma recomendação técnica e passou a ser uma obrigação contratual. Empresas que não apresentarem trajetória consistente de queda nos índices de perda enfrentam penalidades e, em alguns casos, revisão das condições regulatórias. O cenário transformou um problema crônico em uma crise de gestão com prazo definido.
O que torna esse momento ainda mais delicado é a combinação de fatores simultâneos: redes envelhecidas instaladas há quatro ou cinco décadas, expansão urbana que forçou extensões de infraestrutura sem planejamento hidráulico adequado e uma pressão crescente sobre mananciais em diversas bacias hidrográficas. A situação exige respostas de engenharia que vão muito além do remendo pontual.
Por que o diagnóstico ainda falha antes da solução?
Um dos maiores obstáculos para o controle de perdas não é tecnológico, mas sim informacional. Grande parte das redes de distribuição no Brasil ainda opera sem monitoramento em tempo real, sem setorização hidráulica e sem cadastro técnico atualizado das tubulações existentes. Muitas operadoras nem sequer conseguem dizer com precisão onde estão perdendo água, em que volume e por qual razão.
A setorização da rede (onde ela é dividida em zonas menores, com controle independente de pressão e vazão) é uma das estratégias mais consolidadas para isolar e quantificar perdas. Quando combinada com telemetria e sensores distribuídos, permite detectar anomalias antes que um vazamento invisível se torne uma ruptura na superfície. Odair José Mannrich observa que essa abordagem, já sistematizada em países europeus e em grandes operadoras privadas do Sudeste brasileiro, ainda é aplicada de forma fragmentada em boa parte do território nacional, frequentemente associada a projetos pontuais e não a uma política operacional geral.
A pressão como variável silenciosa de destruição
Pouco debatido fora dos círculos técnicos, o controle de pressão é um dos instrumentos mais eficazes na redução de perdas reais. Redes operando com pressão acima do necessário, uma situação comum em sistemas sem zoneamento hidráulico adequado, acabam por desacelerar o desgaste das tubulações, aumentam a frequência de rupturas e amplificam o volume de água que escapa por cada fissura existente. A física é direta: maior pressão significa maior vazão de saída em cada ponto de falha.

A instalação de válvulas redutoras de pressão em pontos estratégicos pode gerar reduções expressivas de perda sem necessidade de substituição imediata das tubulações, uma intervenção de custo relativamente baixo e alto retorno, especialmente relevante para sistemas onde os recursos para renovação completa da infraestrutura são limitados. Com isso, Odair José Mannrich expressa que compreender o comportamento hidráulico de toda a rede, e não apenas dos pontos de falha visíveis, é uma exigência técnica que define a qualidade do diagnóstico e da solução.
Inteligência artificial e sensores entram definitivamente na gestão hídrica
Em 2026, o avanço das ferramentas digitais aplicadas ao saneamento já é uma realidade. Sensores acústicos que identificam o som característico de vazamentos subterrâneos, plataformas de modelagem hidráulica em tempo real, algoritmos de aprendizado de máquina aplicados à predição de falhas e drones com câmeras termais para mapeamento de grandes redes fazem parte do arsenal técnico disponível. O desafio atual não é mais o acesso à tecnologia, mas a capacidade de integrá-la a uma gestão operacional que saiba interpretar e agir sobre os dados gerados.
A modelagem hidráulica computacional, por exemplo, permite simular o comportamento de toda a rede sob diferentes cenários de demanda e pressão, identificando pontos críticos antes que se manifestem em campo. O que antes exigia anos de observação empírica passou a ser possível em semanas de análise digital. Odair José Mannrich explica que esse salto representa uma mudança de paradigma: a engenharia de saneamento passou a operar com a lógica de sistemas inteligentes, e não apenas com a lógica de obras físicas.
Além da conta de água
Quando se perde água tratada em escala, perde-se também a energia que foi consumida para captá-la, tratá-la e pressurizá-la ao longo de toda a rede. Perde-se investimento em infraestrutura já executada. Perde-se a capacidade de atender populações que ainda aguardam acesso ao abastecimento regular. E perde-se, em última análise, a sustentabilidade financeira e ambiental do próprio sistema. Em um país onde milhões de pessoas ainda dependem de soluções alternativas e precárias de acesso à água, cada ponto percentual de perda reduzido representa uma margem que poderia ser convertida em cobertura real do serviço.
A relação entre as perdas nos sistemas de abastecimento e a crise hídrica estrutural do país é historicamente subestimada pelo grande público. Enquanto o foco se volta para a construção de novas obras de captação, a otimização das redes existentes permanece como uma das alavancas mais eficientes, mas menos exploradas para ampliar a segurança hídrica nacional sem necessidade de novos impactos ambientais.
O futuro das redes de água passa pela inteligência da infraestrutura
A próxima fronteira do saneamento não está apenas na expansão das redes, mas sim na inteligência com que essas serão operadas nas próximas décadas. Cidades que adotam sistemas integrados de monitoramento, gestão dinâmica de pressão e manutenção preditiva estão construindo infraestruturas que envelhecem de forma controlada e respondem com mais agilidade às demandas de uma população urbana crescente. Esse modelo, que começa a ganhar escala no Brasil em 2026, representa uma virada na forma como o setor concebe a vida útil e a eficiência de seus ativos.
Como engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich ressalta que a engenharia aplicada ao saneamento deixou de ser apenas uma questão de tubos e estações de tratamento. Tornou-se uma disciplina que cruza dados, comportamento urbano, regulação e visão de longo prazo, configurando-se como uma área fundamental para enfrentar os maiores desafios de infraestrutura no Brasil atual.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
