Câmara aprovou em primeira discussão empresa pública para implantar e operar data center que será empreendimento-âncora da futura ZPE de Maringá.
Maringá deu um novo passo para transformar a infraestrutura digital em parte da estratégia de desenvolvimento econômico do município. A Câmara Municipal aprovou em primeira discussão, na quinta-feira (24), o projeto que autoriza a criação da Maringá Data e Tecnologia S.A., empresa pública destinada a implantar e operar um data center que deverá funcionar como empreendimento-âncora da futura Zona de Processamento de Exportação (ZPE) da cidade. O Projeto de Lei nº 18.401/2026 foi apresentado pelo Executivo em 21 de setembro e tramita em regime de urgência. (SAPL Maringá)
A novidade, porém, levanta uma pergunta importante para quem acompanha tecnologia, empregos e investimentos em Maringá: o que a criação dessa empresa pública significa na prática e o data center já está garantido? A resposta exige separar três etapas diferentes: a aprovação municipal da empresa, a implantação efetiva da infraestrutura tecnológica e o processo federal necessário para uma ZPE existir oficialmente.
O que a nova empresa pública pretende fazer
O projeto aprovado em primeira discussão autoriza o município a criar uma sociedade anônima de capital fechado, com capital integralmente municipal, denominada Maringá Data e Tecnologia S.A. A finalidade expressamente indicada no texto é implantar, operar e explorar um data center que funcionará como empreendimento-âncora da futura ZPE de Maringá. O próprio cadastro oficial do projeto na Câmara registra que a matéria continua em tramitação, portanto a autorização aprovada em primeira discussão ainda não equivale à criação definitiva da empresa. (SAPL Maringá)
A proposta é relevante porque um data center representa uma infraestrutura diferente de um empreendimento tecnológico convencional. Em vez de concentrar suas atividades em lojas, escritórios ou fábricas tradicionais, uma estrutura desse tipo abriga equipamentos responsáveis por armazenar, processar e transmitir grandes volumes de dados. Dependendo de sua escala e finalidade, pode atender serviços de computação em nuvem, inteligência artificial, armazenamento corporativo e outras aplicações digitais. No caso de Maringá, a prefeitura pretende associar essa infraestrutura à estratégia de criação de uma ZPE, transformando o projeto tecnológico em uma peça da política municipal de desenvolvimento econômico.
O projeto também prevê que a futura companhia tenha patrimônio próprio e autonomia administrativa, financeira e operacional. Reportagens locais baseadas no texto legislativo informam ainda que a proposta permite aportes municipais que podem chegar a R$ 20 milhões ao longo de quatro anos, além da possibilidade de integralização de bens, imóveis e direitos, conforme as condições previstas no projeto. (Maringá Post)
Data center e ZPE: por que os dois projetos estão ligados
A ligação com a ZPE é fundamental para compreender a estratégia de Maringá. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as Zonas de Processamento de Exportação são áreas delimitadas para instalação de empreendimentos que podem usufruir de um regime especial depois de cumpridos os requisitos legais e obtidas as aprovações necessárias. Atualmente, o governo federal informa a existência de 13 ZPEs criadas por decreto presidencial no Brasil, das quais quatro estão ativas e nove permanecem em diferentes fases de instalação. (GOV.BR)
Maringá, portanto, ainda precisa avançar nesse processo federal. A própria proposta municipal utiliza a expressão “futura Zona de Processamento de Exportação de Maringá”, deixando claro que a criação da empresa pública não significa, por si só, que a ZPE já esteja oficialmente criada. Essa distinção é importante porque uma eventual infraestrutura de data center pode depender de diferentes decisões administrativas, estudos técnicos, licenciamento, disponibilidade de energia e outros fatores que não são resolvidos apenas pela aprovação de uma lei municipal.
A Câmara também aprovou, na mesma sessão, outros projetos relacionados à estruturação financeira e orçamentária da iniciativa. O projeto que autoriza a abertura de crédito adicional especial e a proposta de alteração do Plano Plurianual aparecem na Ordem do Dia oficial junto ao PL 18.401. (SAPL Maringá) Isso mostra que o município está tratando o empreendimento como um projeto que exige estrutura administrativa e previsão orçamentária, e não apenas como uma intenção tecnológica.
Para o morador de Maringá, essa etapa significa que a discussão começa a sair do campo das declarações e entra no processo legislativo formal. Ainda assim, não é possível tratar investimentos anunciados anteriormente para um data center privado como se fossem automaticamente o mesmo empreendimento da empresa pública. O texto do PL 18.401 define o data center como empreendimento-âncora da futura ZPE, mas não identifica expressamente no projeto a empresa privada RT-One citada em anúncios anteriores. (MaringáPR)
O que Maringá precisa resolver antes de transformar o projeto em realidade
A infraestrutura de um grande data center envolve desafios que vão muito além da construção de um prédio. É necessário avaliar capacidade de fornecimento de energia, sistemas de refrigeração, conectividade de alta capacidade, segurança física e digital, disponibilidade de terrenos, licenciamento e condições de operação. Por isso, o projeto da empresa pública representa uma etapa institucional, mas não permite concluir que toda a infraestrutura necessária já esteja contratada ou disponível.
Também é importante acompanhar quais serão os próximos documentos e estudos apresentados pelo município. O projeto de lei estabelece a estrutura jurídica da companhia, mas informações operacionais como cronograma definitivo, capacidade computacional, demanda energética, consumo de água, número de trabalhadores, modelo de contratação e projeções financeiras precisarão ser acompanhadas em documentos posteriores e na execução do projeto. Reportagens publicadas nesta semana destacaram justamente que parte dessas informações ainda não está detalhada no texto legislativo. (Aconteceu Maringá)
Esse acompanhamento será relevante porque a dimensão econômica de um data center depende diretamente da escala da infraestrutura. Um empreendimento de grande porte pode movimentar fornecedores especializados, construção civil, telecomunicações, energia, segurança, manutenção e serviços tecnológicos, além de criar demanda por profissionais qualificados. Porém, os efeitos concretos sobre emprego e arrecadação não devem ser tratados como garantidos antes da definição do projeto, da implantação e da entrada efetiva em operação.
A proposta também coloca Maringá diante de uma discussão maior sobre a capacidade das cidades de participar da economia digital. A UEM, por exemplo, realizou nesta sexta-feira (25) uma capacitação do Google Cloud voltada à criação de agentes de inteligência artificial, aberta a estudantes e profissionais, mostrando que formação tecnológica e infraestrutura computacional caminham em paralelo no ecossistema local. (Notícias UEM) A universidade também iniciou neste ano uma graduação de Engenharia de Controle e Automação com foco em inteligência artificial, reforçando a formação de mão de obra especializada na região. (Asc Uem)
A aprovação em primeira discussão, portanto, coloca o data center no centro de uma estratégia que combina infraestrutura digital, formação profissional e desenvolvimento econômico. O próximo passo será acompanhar a tramitação do PL 18.401 e dos projetos associados, além do processo necessário para a futura ZPE. A situação oficial da matéria pode ser acompanhada diretamente pelo Sistema de Apoio ao Processo Legislativo da Câmara de Maringá, enquanto informações sobre as ZPEs brasileiras estão disponíveis no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. (SAPL Maringá)
Para Maringá, o projeto representa uma mudança importante na forma de pensar tecnologia como infraestrutura econômica. Mas entre a autorização legislativa e um data center funcionando existe um caminho que envolve orçamento, governança, engenharia, energia, conectividade, licenciamento e decisões federais. O que já pode ser confirmado é que a Câmara aprovou a proposta em primeira discussão e que o município pretende utilizar a futura empresa pública como instrumento para estruturar o empreendimento ligado à ZPE. Os próximos passos serão decisivos para mostrar qual será, de fato, o tamanho e o impacto desse projeto para a cidade.
