O pós-graduado em Geriatria e fundador do projeto social Humaniza Sertão, Dr. Yuri Silva Portela,trata o luto não elaborado como um fator clínico relevante que influencia o curso de praticamente todas as condições de saúde do idoso. Além disso, na terceira idade, ele assume uma dimensão acumulativa que não tem equivalente em outras fases da vida. O idoso não perde apenas pessoas queridas. Mas perde papéis, capacidades, projetos e versões de si mesmo que não voltam mais. Neste artigo, você vai entender como o luto se manifesta na terceira idade e o que o cuidado humanizado pode oferecer. Acompanhe!
Por que o luto na terceira idade é clinicamente diferente?
Na terceira idade, o luto raramente é singular. Isso porque ele se acumula: a morte de cônjuges, irmãos, amigos de décadas, às vezes filhos, chega numa velocidade que não dá tempo para a elaboração completa de cada perda antes que a próxima aconteça. Esse acúmulo cria um estado de luto crônico que se instala de forma silenciosa e que frequentemente se manifesta como depressão, ansiedade, queixas físicas difusas ou simples desinteresse pela vida, que os idosos raramente conseguem nomear como sofrimento.
Para Yuri Silva Portela, há também o luto das capacidades. Isto é, o idoso que perdeu a carteira de motorista, que não consegue mais subir escadas, que depende de outros para atividades que sempre realizou sozinho, vive um luto que a medicina raramente reconhece como tal. Dessa forma, esse sofrimento, tratado como adaptação natural às limitações da idade, tem impacto clínico real que influencia a motivação para o autocuidado, a adesão ao tratamento e a qualidade de vida de formas profundas.
Como o luto não elaborado se manifesta no corpo do idoso?
A somatização do luto é um fenômeno bem documentado que assume formas clínicas diversas. Dado que dores crônicas sem explicação orgânica suficiente, fadiga persistente, alterações do apetite e do sono, queda da imunidade e agravamento de condições crônicas preexistentes são expressões físicas de um sofrimento emocional que não encontrou outra saída. O organismo faz o que a psique não consegue processar conscientemente.

Sob a ótica do doutor Yuri Silva Portela, identificar o luto não elaborado como causa subjacente dessas manifestações exige tempo e escuta. É uma habilidade clínica que vai além do protocolo de consulta convencional. Nas ações do Humaniza Sertão nas comunidades do sertão de Quixadá, os psicólogos voluntários frequentemente identificam esse padrão em idosos cujas queixas físicas tinham raízes emocionais que nunca tinham sido investigadas.
O que o cuidado humanizado oferece ao idoso em luto?
A primeira e mais importante oferta é o espaço: dar ao idoso um ambiente seguro, onde o sofrimento pode ser nomeado sem julgamento e sem pressa, já é terapêutico. Muitos idosos carregam perdas por décadas sem nunca ter tido alguém que perguntasse como estavam se sentindo de verdade, sem que a resposta fosse interrompida por uma mudança de assunto ou minimizada por uma frase tranquilizadora.
Conforme destaca o fundador do projeto social Humaniza Sertão, Yuri Silva Portela, o suporte psicológico estruturado, quando disponível, é a intervenção mais eficaz para o luto não elaborado. Mas, na ausência de acesso a esse serviço, que é a realidade da maioria dos idosos vulneráveis atendidos pelo projeto, a presença atenta de familiares treinados para ouvir já produz impacto significativo. Portanto, na prática, educar as famílias sobre o luto do idoso é uma das contribuições mais valiosas que qualquer profissional de saúde pode oferecer.
Luto não elaborado é sofrimento tratável
O doutor Yuri Silva Portela conclui que nenhuma perda do idoso deveria ser tratada como passada e superada sem verificação. Pergunte sobre o que ele perdeu. Essa conversa pode ser o início de um processo de cuidado que transforma o sofrimento silencioso em algo que pode ser elaborado com dignidade.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
