Um jogador abre um jogo novo pela primeira vez com curiosidade e, quinze minutos depois, ainda está preso em telas explicativas sem ter jogado de verdade. É nesse intervalo, entre o clique de “começar” e o primeiro momento de diversão real, que boa parte dos jogos perde o jogador para sempre, muitas vezes sem que o estúdio perceba o motivo.
Segundo Richard Lucas da Silva Miranda, empresário do segmento de tecnologia, tutorial mal calibrado é um dos erros mais silenciosos do desenvolvimento de jogos, porque o problema só aparece nos dados de abandono, quando já é tarde para corrigir sem retrabalho. Entender os padrões que afastam o jogador logo no início ajuda a evitar que isso aconteça.
O tutorial que explica tudo antes de deixar o jogador tentar
Um erro recorrente é apresentar regra atrás de regra em caixas de texto antes de o jogador tocar em qualquer controle. Cada tela adicional de explicação é uma chance a mais de o jogador fechar o jogo, especialmente quando a informação só faz sentido depois de ser vivida na prática, não lida antes dela.
Jogos que ensinam bem costumam inverter essa lógica: colocam o jogador para agir primeiro, ainda que de forma simples, e só depois reforçam a regra com uma frase curta relacionada ao que acabou de acontecer. A informação gruda mais quando vem logo após a experiência, não antes dela.
Um exemplo comum desse erro aparece em jogos de estratégia, em que o tutorial tenta descrever todo o sistema de recursos antes de o jogador construir uma única unidade. No fim, o jogador retém pouco do que leu, porque nada daquilo ainda tinha relevância prática no momento em que foi explicado. O mesmo conteúdo, apresentado no instante em que o jogador precisa dele, costuma ser lembrado com muito mais facilidade.
O tutorial que não sabe a hora de terminar
Outro padrão comum é o tutorial que se estende além do necessário, continuando a interromper o jogo para ensinar mecânicas cada vez mais raras ou secundárias. O jogador já entendeu o essencial, mas o jogo insiste em tratá-lo como iniciante por mais tempo do que deveria.
Esse tipo de tutorial costuma nascer de um medo legítimo do estúdio, o de deixar alguém perdido, mas resolve esse medo do jeito errado. Em vez de confiar que o jogador vai aprender mecânicas secundárias jogando, o jogo tenta ensinar tudo de uma vez, e o resultado é cansaço antes mesmo de a experiência principal começar.
Medir esse ponto exige olhar para dados de sessão, não só para a sensação de quem projetou o jogo. Se o número de jogadores que abandona a sessão cresce justamente nos minutos finais do tutorial, é sinal de que o conteúdo passou do ponto em que ainda era útil e virou obstáculo entre o jogador e a experiência que ele foi buscar.

O tutorial que ensina o que o jogador nunca vai usar
Nem toda mecânica do jogo precisa de um bloco de explicação dedicado. Sistemas raros, opcionais ou usados só em situações específicas costumam ganhar mais atenção no tutorial do que merecem, enquanto o núcleo da experiência, o que o jogador vai fazer na maior parte do tempo, recebe pouco destaque.
De acordo com Richard Lucas da Silva Miranda, um bom teste é perguntar se aquela mecânica vai aparecer nos primeiros minutos reais de jogo. Se a resposta for não, ensinar isso logo de cara só atrasa o momento em que o jogador começa a se divertir com o que realmente importa na experiência.
Uma alternativa usada por vários estúdios é distribuir esse tipo de explicação ao longo do jogo, no momento exato em que o sistema secundário passa a ser relevante, em vez de concentrar tudo num único bloco inicial. Isso reduz o volume de informação que o jogador precisa reter de uma vez só e faz cada explicação chegar quando ela de fato importa para a próxima decisão que ele vai tomar.
O tutorial que ignora quem já sabe jogar
Jogadores experientes reconhecem padrões de gênero rapidamente e se frustram quando são obrigados a passar pelas mesmas explicações básicas que um iniciante completo precisaria. Tratar todo mundo como se estivesse jogando pela primeira vez em qualquer gênero é um jeito garantido de perder quem já domina o vocabulário do jogo.
Oferecer a opção de pular etapas do tutorial, ou adaptar o ritmo das explicações conforme o comportamento do jogador nos primeiros minutos, resolve boa parte desse atrito. Um jogador que executa uma ação corretamente sem hesitar provavelmente não precisa da mesma instrução detalhada que alguém que ainda está testando os controles pela primeira vez, e tratar os dois casos do mesmo jeito desperdiça a paciência de quem já sabe o que está fazendo.
Richard Lucas da Silva Miranda observa que um tutorial bem pensado se ajusta à experiência de quem está jogando, em vez de tratar todo mundo como se nunca tivesse encostado num controle antes. É essa flexibilidade, mais do que qualquer quantidade de texto explicativo, que decide se o jogador chega até a parte do jogo que realmente valia a pena jogar.
