Existe uma ideia equivocada, mas persistente, aponta Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, sobre a dependência emocional dentro de relações abusivas: a de que ela nasce de uma fraqueza pessoal, como se a pessoa simplesmente “gostasse” de sofrer ou não tivesse força suficiente para reagir.
Essa leitura ignora um processo bem mais complexo. A dependência emocional não surge pronta, nem é característica fixa de personalidade. Ela se constrói aos poucos, por meio de mecanismos específicos que operam justamente onde há afeto, expectativa e vínculo, elementos que qualquer relação carrega, mas que, dentro do abuso, passam a funcionar de outra forma, quase sempre sem que a pessoa perceba a transição.
O mito da fraqueza como explicação para a dependência
A crença de que dependência emocional é sinônimo de fragilidade individual costuma vir acompanhada de julgamento, ainda que velado. Essa leitura sugere que, se a pessoa “quisesse de verdade”, sairia da relação sem dificuldade, ignorando por completo os mecanismos psicológicos envolvidos no processo.
Taiza Tosatt Eleoterio explica que esse tipo de julgamento, além de impreciso, reforça a vergonha, sentimento que já costuma manter a pessoa presa ao silêncio. Por isso, entender a dependência emocional como construção gradual, e não como traço de caráter, é o primeiro passo para abandonar essa narrativa simplista, que costuma circular até entre pessoas bem-intencionadas.
Como o afeto é usado para consolidar o vínculo de dependência?
No início de uma relação que depois se torna abusiva, raramente há sinais evidentes de controle. Existe, na maioria dos casos, um período de intensa atenção e afeto, que cria uma referência emocional forte antes que qualquer comportamento problemático apareça.
Taiza Tosatt Eleoterio contextualiza que esse contraste entre momentos de afeto intenso e episódios de tensão é justamente o que fortalece o vínculo de dependência. A pessoa passa a associar o alívio da tensão ao próprio agressor, reforçando um ciclo em que ele se torna, ao mesmo tempo, fonte de sofrimento e de conforto, o que confunde qualquer tentativa de avaliação racional da relação.
Esse padrão de alternância entre afeto intenso e tensão tende a se repetir com uma regularidade que, vista de fora, parece óbvia. De dentro da relação, porém, cada episódio costuma ser interpretado como exceção, e não como parte do ciclo da violência que, aos poucos, vai se consolidando.
O papel do isolamento na manutenção da dependência emocional
À medida que o relacionamento avança, o afastamento de outras relações reduz o número de referências externas capazes de questionar o que está acontecendo. Sem esse contraponto, a realidade construída dentro da relação passa a ser a única disponível.
Na avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, esse isolamento gradual intensifica a dependência, porque a pessoa passa a depender emocionalmente cada vez mais de alguém que, ao mesmo tempo, é responsável por boa parte do próprio sofrimento vivido. A ausência de vozes externas dificulta perceber esse contraste com clareza.
Por que romper esse vínculo não depende apenas de vontade?
Reconhecer intelectualmente que uma relação faz mal nem sempre é suficiente para encerrá-la. A dependência emocional opera em um nível que vai além da racionalidade, envolvendo memórias afetivas, medo da solidão e, muitas vezes, dependência financeira construída ao longo do tempo.
Taiza Tosatt Eleoterio aponta que romper esse vínculo costuma exigir suporte externo, seja profissional, familiar ou comunitário, justamente porque a decisão de sair envolve desmontar uma estrutura emocional construída aos poucos, e não apenas tomar uma decisão pontual em um único momento de coragem.
O que muda ao entender a dependência como processo, não como falha?
Compreender a dependência emocional como resultado de um processo gradual, e não como fraqueza pessoal, nota Taiza Tosatt Eleoterio, muda a forma como se olha para quem vive essa situação. Em vez de julgamento, abre-se espaço para acolhimento e para o reconhecimento de que sair exige tempo e apoio.
Essa mudança de perspectiva também facilita o diálogo entre quem vive a situação e quem está ao redor, já que reduz a tentação de oferecer conselhos simplistas, do tipo “basta sair”, que ignoram a complexidade emocional envolvida. Familiares e amigos que compreendem esse processo tendem a manter a paciência necessária para continuar por perto, mesmo quando a saída definitiva demora mais do que gostariam.
Dessa forma, desfazer esse mito não é apenas uma questão teórica: é o que permite que mulheres em situação de dependência emocional sejam vistas com mais compreensão e menos culpabilização por quem está ao redor delas, além de facilitar o caminho de volta à autoestima depois da saída.
